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1 de dezembro de 2025 · LinkedIn

IA resolve tudo - exceto você. A escassez infinita em um mundo abundante.

Assisti Elon Musk e Bernie Sanders no Joe Rogan e percebi que descrevem o mesmo colapso por ângulos diferentes. A pergunta deixou de ser quais empregos somem, e virou o que sobra quando trabalho, dinheiro e tempo perdem a lógica que organizava a vida.

IAFuturo do TrabalhoEconomiaSociedade

Nos últimos dias fiz um experimento meio estranho. Assisti ao episódio do Joe Rogan com o Elon Musk, e na sequência, voltei ao último episódio com o Bernie Sanders.

Dois mundos. Duas narrativas. Duas visões de futuro.

E uma sensação incômoda: eles estavam falando da mesma coisa, mas como se não estivessem. A ruína do contrato social que organiza nosso mundo.

Essa sensação não saiu da minha cabeça.

Elon Musk é o engenheiro do futuro.

Fala de quem vê o mundo em termos de sistema operacional. Para ele:

  • A automação é inevitável, rápida e violenta.
  • Quase tudo que é trabalho digital será varrido por IA.
  • O trabalho vai se tornar opcional.
  • Caminhamos para um cenário de abundância: produtos e serviços infinitamente acessíveis.
  • O grande risco é sistêmico: IA fora de controle, estruturas críticas nas mãos de poucos, colapso de instituições.

É uma visão de futuro onde a tecnologia resolve quase tudo, e cria alguns riscos existenciais no meio do caminho.

Quando foi perguntado: “E o sentido da vida, quando ninguém mais precisar trabalhar?”, o Elon hesita. E admite não saber responder.

Bernie é o defensor do humano.

O Bernie, por outro lado, fala como quem olha para pessoas antes de olhar para gráficos. Para ele:

  • A automação vai destruir milhões de empregos.
  • Os primeiros atingidos serão motoristas, depois trabalhadores de escritório, depois quase todos.
  • Renda básica sozinha não resolve nada se as pessoas perderem propósito.
  • O trabalho é mais do que salário: é identidade, rotina, pertencimento.
  • O risco não é só econômico, é emocional, psicológico e social.

Quando ele fala, dá pra sentir o medo por trás da análise, mas não é medo de robôs. É medo de pessoas que não fazem mais ideia de quem são.

E quando a conversa chega à mesma pergunta: “Quem seremos num mundo em que o trabalho não for mais o eixo da vida?”, ele também admite, não sabe.

Onde os dois se encontram (e que pode passar despercebido)

O que me intrigou foi isso: Elon e Bernie estão descrevendo o mesmo colapso por ângulos diferentes.

Um olha para o sistema. O outro olha para as pessoas.

Mas o que está ruindo, na verdade, é o contrato simbólico que organizou o mundo moderno: trabalho = identidade = lugar na sociedade.

Por séculos, responder “o que você faz?” tem sido quase o mesmo que responder “quem você é”.

“Sou médico.” “Sou engenheiro.” “Sou advogado.” “Sou empresário.”

O trabalho funcionou como eixo de narrativa. Ele diz em que história você esteve: qual seu papel, seu esforço, seu horizonte.

O que estamos pondo em risco não é só emprego. É o roteiro da vida que há séculos vem nos acompanhando.

E é por isso que a pergunta “quais profissões vão desaparecer?” é muito menos importante do que: “O que acontece com uma sociedade quando o principal eixo de identidade deixar de existir?”

Não é só sobre tecnologia. Nem só sobre política.

Quando o Elon fala em um futuro onde “as pessoas não vão mais precisar se preocupar com dinheiro”, ele não está apenas descrevendo abundância tecnológica. Dizer que:

  • IA + robôs gerarão abundância
  • bens e serviços serão extremamente baratos
  • haverá “universal high income”
  • as pessoas poderão “não se preocupar com dinheiro”
  • mundos virtuais fornecerão propósito e atividades significativas
  • o custo de vida poderá ser “quase zero”

É sugerir, implicitamente, uma tese radical: de que a escassez econômica poderia tornar-se irrelevante para o indivíduo médio.

Ele está, talvez sem perceber, apontando para algo muito mais profundo, que vai além da tecnologia, e avança sobre a transformação no próprio papel do dinheiro como coordenador da vida humana.

Von Mises nos ensinou que hoje o dinheiro faz quatro coisas fundamentais:

  • coordena escolhas intertemporais (poupar vs consumir)
  • sinaliza escassez (preços)
  • disciplina incentivos (lucro e prejuízo)
  • organiza relações sociais (funções, papéis, status, dignidade)

Se Elon está certo, o papel do dinheiro seria reduzido dramaticamente em pelo menos três desses quatro pontos.

Mas se formos fiéis às lentes de Mises: enquanto houver escassez, dinheiro é necessário. E a escassez nunca desaparece totalmente, nem mesmo no cenário de Musk.

Mas isso não quer dizer que o papel existencial do dinheiro não possa mudar.

O que pode acontecer (e é isso que Elon tateia sem formular) é: o dinheiro deixa de ser o “núcleo de sobrevivência” e passa a ser o núcleo de diferenciação, status, acesso, exclusividade e singularidade.

Ou seja:

  • comida pode ser quase gratuita
  • transporte pode ser quase gratuito
  • energia pode ser quase gratuita
  • bens duráveis podem ser quase gratuitos

Quando sobrevivência deixa de ser o centro da equação, o dinheiro migra para outro lugar: passa a comprar tempo humano, atenção, experiências únicas, acesso, reputação, autonomia, qualidade de ambiente, qualidade de instituições. Em um mundo de abundância material, a escassez se desloca para o simbólico e para o institucional.

Pois:

  • localização não é gratuita, nem replicável: imóveis, localização, jurisdições, etc.
  • tempo humano não é gratuito: mentoria, reputação, status, relações sociais, confiança.
  • escassez simbólica não é gratuita: obras originais, arte, identidade, narrativa personalizada.
  • experiências únicas não são gratuitas: concertos físicos, viagens reais, interação não mediada, cultura presencial.
  • atenção não é gratuita: a “escassez última” é o tempo, e ele não escala com tecnologia.
  • governança não é gratuita: ambientes de estabilidade jurídica e liberdade elevada.
  • confiabilidade não é gratuita: seres humanos precisam de fricção para evoluir.

Elon vê abundância de bens, Mises veria a escassez deslocada para outros domínios. E o dinheiro continuará sendo o instrumento para navegar esse domínio de escassez residual.

Aqui nos deparamos com um outro problema: enquanto discutimos IA, automação e programas de renda, há décadas acontece uma erosão socioeconômica silenciosa. Falo aqui do valor do dinheiro e da qualidade das instituições.

Moedas que perdem poder de compra ano após ano. Governos e organizações que oferecem menos liberdade e mais dependência.

Quando o dinheiro deixa de ser um registro minimamente confiável de tempo, esforço e renúncia, o futuro deixa de ser um lugar em que vale a pena se projetar. E quando instituições deixam de sustentar autonomia e passam a mediar tudo por cima, o indivíduo perde margem para construir a própria trajetória.

O resultado é uma combinação explosiva: de um lado, tecnologia destruindo funções mais rápido do que conseguimos criar narrativas novas; de outro, sistemas econômicos e políticos que corroem a autonomia, empurrando as pessoas para uma posição passiva, subsidiada, gerida.

Nesse cenário, nem a promessa de abundância do Elon, nem a promessa de proteção do Bernie dão conta.

Porque a pergunta central deixou de ser: “Como as pessoas vão ganhar dinheiro?” ou “Como vamos distribuir renda?”

E virou outra, bem mais incômoda:

Como um indivíduo encontra uma história para viver quando o trabalho, o dinheiro e o próprio tempo perderam a antiga lógica que organizava a vida?